Filosofia de Vida - Pensamento, comportamento e opinião

04
Jul

Tolerância

Aquele que venceu todas as cadeias do mal, mas também as do bem, a este eu chamo brahmane.
Dammapada – Buda.

A tolerância nasce do discernimento entre o bem e o mal. Note que o verbo é discernir e não julgar. É muito fácil julgar, difícil é entender. Em uma oportunidade pergunte a um filósofo o que é o bem e o mal, questão essa que cada filósofo irá dar uma resposta diferente e possivelmente ampla e vaga, pois como já escutei “são conceitos complexos, interpenetráveis e complementares”, difícil mesmo não acha?

Se a resposta está difícil de ser achada talvez devêssemos mudar a pergunta. A minha sugestão é: como percebemos o bem e o mal? Como você julga que algo é bom ou ruim? Tudo está na sua carga cultural, aquilo em que somos instruídos desde que nascemos. Como a pergunta é bem específica: como percebemos…? A minha resposta é a seguinte: nossa percepção de bem e mal está no ganho ou perda de nossos próprios valores. Exemplo: se temos em alta estima o valor família e algum evento diminua este valor ou até mesmo o destrua consideraremos ruim.

Explicando em miúdos. Digamos que nossa carga cultural defina família como: pai e mãe - casados na igreja - filhos, casa e sossego. Se nosso vizinho cada dia aparecer com uma mulher diferente, for festeiro e etc. Nosso vizinho ataca diretamente um valor de nossa carga cultural, então nosso vizinho só pode ser o errado, o mal, o feio, o perverso, o mal exemplo… Bem e mal só existem na comparação.

Por que estamos falando de bem e mal se o assunto principal é tolerância? Simples, uma vez definindo segundo nossos próprios valores o que é bom ou ruim começamos a querer semear o bem e aniquilar o mal, contudo esquecemos da chave: nossos valores não são os mesmos do nosso vizinho. De forma curta: o nosso bem não é o bem do vizinho. Muito fácil de entender, você está agora acenando com a cabeça que sim, que concorda, mas no dia-a-dia tenho certeza que irá cair nessa armadilha, pois “eu sempre estou certo”, diz seu inconsciente.

Neste ponto entramos com a tolerância que é a arte de cultivarmos o bem para nós e deixarmos o vizinho fazer o bem dele. É algo como cuidar bem do seu próprio umbigo e deixar o umbigo do vizinho para ele, mesmo que consideremos que o umbigo dele precisa de um bom banho. Tolerância nada mais é do que: não gostou? Não faça. Mas não tire o direito do outro fazer.

Sou completamente contra o aborto, mas isso não é argumento para impedir alguém que seja a favor de fazê-lo. Eu votei no plebiscito das armas pensando assim: “não preciso de uma arma, mas isso não me dá o direito de proibir o uso daquele que acha que precisa.”

A intolerância de achar que o nosso bem deve ser o bem de todos causou muitas guerras e ainda continua causando. Quantos mais terão que morrer e sofrer para que possamos aprender que o bem maior é ser feliz e deixar o outro também o ser?

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3 Responses to “Tolerância”

  1. 1
    António Says:

    Note que o verbo é discernir e não julgar. É muito fácil julgar, difícil é entender.

    Excelente…

    O bem e o mal é das coisas mais fáceis de definir qu eexistem:

    Bem-bom: o que potencialmente criador de vida (minha vida)

    Mal-mau: o qu eé potencialmente destruir de vida ( a minha vida)

    Misture um pouco de egoismo com anasile sociologica e todos os ben se male sdest emundo são facilmenet compreensiveis.

  2. 2
    Quando Deus Mentiu… Says:

    [...] Era a árvore do conhecimento do bem e do mal, ou seja, saber julgar e definir bem e mal. [...]

  3. 3
    Comentários dos Sútras I-5 Says:

    [...] Klishta vem da raiz kliS (perigo; sofrimento, agonia, afligir, agoniar) e recebe diretamente os significados de sua raiz. Quando falamos que um vritti é prazeiroso ou doloroso estamos afirmando somente uma constatação de como o yôgin ou o samsárin (não-yôgin) percebe estes movimentos da consciência chamados de vritti. A questão é que pelo paradigma cultural ocidental, devemos nos afastar do “mal” e aproximarmo-nos do bem. Contudo faz parte da evolução do Yôgin passar pelas duas cadeias, tando a boa quanto a ruim, pois em termos universais esta dualidade é uma mera opinião e não uma realidade. Todo evento pode ser considerado bom ou ruim, prazeiroso ou doloroso, tudo dependerá de quem o interpreta. Veja sobre o bem e o mal explicados a partir da tolerância. [...]

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